Roupa de Brincar (com palavras e emoções): entre a leitura e o teatro

Heloise Baurich

►VidorDoutora em Teatro, atriz e professora de teatro no Departamento de Artes Cênicas da UDESC, na área de Pedagogia do Teatro e Teatro-Educação.

Resumo: Através da interface entre os campos do teatro, da educação e da literatura, este texto pretende apresentar a proposta denominada leitura e teatralidade (Vidor, 2016). Nesta proposta, a intenção é explorar formas de trabalhar com o texto literário, em sua materialidade, em processos teatrais desenvolvidos na educação formal e informal, com crianças e jovens. Roupa de Brincar, de Eliandro Rocha é o texto escolhido aqui para pensar na colocação das palavras em corpo e em voz no espaço. A leitura em performance (Zumthor, 2007) associada à perspectiva lúdica delineiam os caminhos que aproximam teatro e literatura.

Palavras-chave: Ensino do teatro. Leitura. Jogo.

O Léxico de Pedagogia do Teatro (2015) aponta, no verbete Teatro-Educação, as diversas possibilidades que se configuram através da imbricação destas duas áreas de conhecimento, que são distintas, porém que quando aproximadas criam um campo potente para a criação e o aprendizado.

Quando pensamos nas particularidades do ensino do teatro na escola, um dos aspectos que merece atenção é o trabalho com o texto. Trabalhar a partir de um texto facilita a condução do processo, pois estabelece contexto, foca a temática, ajuda no direcionamento e desenvolvimento das atividades pelo professor. Além deste aspecto, o contato com a realidade ficcional apresentada pela literatura possibilita ao aluno se deparar com distintas formas de existência, de pensamento, fato que amplia sua visão de mundo. Para abordar especificamente o trabalho com o texto no contexto do teatro-educação, abordarei a proposta que chamo de leitura e teatralidade e que trata da aproximação e da apropriação do texto em sua materialidade, em processos teatrais, através de leituras coletivas e lúdicas.

Antonio Candido, no artigo intitulado O direito à literatura defende que a literatura é uma necessidade universal que precisa ser satisfeita, cumprindo um papel salutar à humanização e às relações sociais. O autor confere à literatura um sentido amplo, que engloba “todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura” (1970, p.174). Em relação à esta amplitude, há um aspecto importante a ser considerado, especialmente no que se refere ao trabalho com crianças e jovens, que é a categorização da literatura apresentada, a priori, como infantil ou juvenil. Sobre esta questão, a escritora argentina María Teresa Andruetto diz:

O que pode haver de “para crianças” ou “para jovens” numa obra deve ser secundário e vir como acréscimo, porque a dificuldade de um texto capaz de agradar a leitores crianças ou jovens não provém tanto da sua adaptabilidade a um destinatário, mas sobretudo, de sua qualidade ( 2012, p. 61).

A autora chama a atenção para o risco de uma classificação da obra pelo que ela tem de infantil ou juvenil, porque neste caso é fundamental saber a concepção de criança que está em jogo. Segundo ela, o mercado editorial, muitas vezes, parte de ideias preconcebidas sobre o que é uma criança ou um jovem, criando guetos de autores que podem até ser consagrados, mas que não têm valor suficiente para serem lidos por leitores tão somente.

Depois de pensar na importância da presença da literatura nos processos de ensino, passamos ao tema da aproximação da leitura com o teatro, tomando por base os estudos de Paul Zumthor (1993; 2007; 2010). Nesta proposta, procuro destacar aspectos relacionados à presença da voz na ação de ler o texto, conjugada com as ações de escutar e ver, no coletivo. Assim, a associação da leitura com o teatro se centra na presença do corpo-voz no espaço e na relação com os outros, diferente da leitura silenciosa e individual. Esta opção leva à priorização das práticas coletivas como modos possíveis de ler e fruir a literatura. Através da dissociação dos sentidos da visão e da escuta, a proposta transita entre: ler – ler em performance – escutar e ver. A teatralidade se configura através do olhar dos participantes, que se alterna entre uma ação e outra, livremente.

Em síntese, o espaço criado no interstício entre os campos da leitura e do teatro põe em foco:

– a exploração dos elementos paralinguísticos (Ubersfeld, 2002), que compreendem todo o domínio dos signos ligados à linguagem a partir de sua emissão fônica;

– o endereçamento do texto (demarcação da interlocução) pelos leitores e na sensibilização da escuta dos textos pelos ouvintes;

– a exploração do espaço, que se dá através de pequenos deslocamentos corporais durante a leitura, alternando os planos alto, médio e baixo e explorando a projeção da voz com limites provocados pelas paredes (cantos da sala), pelos corpos dos outros e pelos objetos;

– a observação em processo destas ações, que são alternadas entre os participantes, de modo a conferir lances de teatralidade.

Assim, todos os participantes são convidados a explorar os textos sem a preocupação de que eles sejam decorados nos moldes de uma montagem teatral. O que se busca é a realização de um trabalho de dilatação do tempo de contato com o texto em sua materialidade, de modo a prolongar a recepção e o surgimento das primeiras impressões. Ou seja, abrir espaço, alongar o tempo e dar importância a este momento bastante inicial e anterior a qualquer tentativa de realização da cena.

A presença do teatro neste caso afasta-se do formato da leitura dramática e da dramatização do enredo da narrativa lida. A proposta é explorar modos de entrelaçar corpo-voz/endereçamento/ espaço à leitura, como um “aquecimento prévio” e no ato em si, observando o quê este entrelaçamento suscita no leitor-emissor e no ouvinte-observador interno ao processo, nos primeiros contatos com o texto em sua materialidade. A sugestão é não trabalhar com textos dramáticos inicialmente, pois o objetivo é evitar que o leitor seja induzido a representar este texto, trocando em sua ação o verbo ler pelo verbo atuar.

É importante esclarecer que todos os participantes, em todos os momentos do processo devem estar com uma cópia do texto em mãos, seja quando lhes cabe ler e emitir, seja quando lhes cabe ouvir e ver a emissão. Estas ações são alternadas durante o processo a partir de instruções lançadas pelo proponente. Sendo assim, o texto é recebido ao mesmo tempo pelo olho e pelo ouvido, de modo que, segundo Bajard (2005), o receptor pode compará-lo por duas vias, numa situação de tradução.

Vale ressaltar que a abordagem lúdica deve ser valorizada, de modo que o trabalho seja realizado sempre no coletivo, com todos implicados nas ações propostas, fruto da inserção do corpo-voz.  E um último detalhe: o proponente deve disponibilizar aos participantes, sempre que possível, o objeto livro no qual o texto trabalhado está publicado, dando a oportunidade aos participantes de contato individual com a obra, além da observação das ilustrações e da capa, dependendo do caso.

Apresentamos, a seguir, uma proposta de preparação para a leitura do texto literário Roupa de Brincar, de Eliandra Rocha. Dentre os temas abordados pela narrativa estão convivência, relações familiares, olhar infantil, brincadeira, realidade e fantasia, mudança, superação e luto. E seu potencial teatral é dado pela oportunidade de criação de personagens e situações ficcionais através da utilização de roupas, explorando o imaginário infantil.

 

Brincar para ler e ler para brincar – a menina e o universo (de tia Lúcia)

 

Eu adoro visitar a tia Lúcia. Não é pelos bolinhos de chocolate que ela faz pra mim, que derretem na boca. Também não é pelas histórias que ela conta e reconta. Nem pela sua imitação de animais, que me faz rir muito. O QUE EU GOSTO SÃO DAS ROUPAS DA MINHA TIA.

 

Assim inicia a história de uma menina, sem idade e nem identidade precisas. Para a menina, a pessoa mais divertida do mundo era a tia e o melhor lugar para ficar era o guarda-roupa dela, onde passava horas brincando com as roupas diferentes que encontrava. A tia se vestia de maneira exótica e alegre, fato que encantava a menina. Um dia, ao chegar na casa da tia, percebe tudo mudado: a tia está triste, vestida de preto e seu guarda-roupa está quase vazio. A menina pensa: como fazer para a alegria voltar e com ela as roupas de brincar?

Antes de realizar a leitura com as crianças, a proposta é desenvolver atividades que possam explorar: composições com roupas e tecidos para a criação de personagens; composições com as cores; as cores e sua simbologia; a relação entre as cores e as emoções. Em relação ao espaço, a sugestão é explorar a dualidade entre espaços vazios – armário vazio, baú vazio, quarto vazio – e os mesmos espaços cheios, espaços escuros e iluminados, grandes e pequenos, entre outras possibilidades. E em relação ao corpo, explorar a transformação das emoções através de imagens e/ou movimentos corporais – iniciar com uma emoção, transformar na emoção oposta e retornar à primeira.  Neste caso, o ritmo e a intensidade dos movimentos podem ser especialmente estimulados através das instruções do proponente, assim como a inserção de sonoridades. Após este “aquecimento para a leitura”, a ideia é que, com os participantes sentados em roda com o texto em mãos (o proponente deve digitalizar o texto em folha à parte), seja realizada a leitura coletiva, sem a observação das imagens (no caso de ser um livro ilustrado como o que está em questão). Cada leitor pode “tomar a leitura” livremente ou cada leitor pode “passar a leitura” a outro participante quando desejar. Ao término da leitura, pode-se ouvir as impressões do grupo e, na sequência, reler o texto da mesma forma, disponibilizando o objeto livro, de modo que todos possam observar as ilustrações.

Um último aspecto a se pensar é em relação à escolha dos textos. Além de levar em conta a qualidade literária, o tema e o potencial para desenvolvimento de teatralidade, um critério que me parece fundamental é que o texto toque o proponente. A relação afetiva que se tem com um texto é um ponto de partida para que, quando compartilhado, ele possa tocar verdadeiramente o outro. Em todos os casos, o objetivo principal é envolver os alunos com o teatro e com a literatura.

 

Considerações finais

A proposta de trabalho com o texto literário, no âmbito do ensino do teatro, através da abordagem leitura e teatralidade, vai ao encontro do potencial que o teatro tem de fazer com que as palavras saltem da folha de papel, manifestando-se em uma participação que intensifica o aspecto afetivo e emocional. O desafio é encontrar uma chave lúdica para ativar a passagem das palavras pelo corpo do aluno-leitor e sua partilha com o(s) aluno-ouvinte-espectador(es), em um encontro coletivo.

O jogo que se estabelece entre leitores e texto, leitores – texto e espaço, leitores – texto – espaço e ouvintes, coordenado através de regras simples e transitórias, ganha intensidade na medida em que ele é permeado pela atmosfera do texto ou concretamente pelos temas abordados por ele. Assim, o cruzamento da forma de ler em performance com o texto, nesta proposta, foge da ideia de dramatização do enredo.

Vimos que a ficção tem um papel fundamental para a construção da personalidade. Em termos da sua relação com a infância, o texto literário não poupa a criança dos temas brutais da vida, porém o enfrentamento destes temas no âmbito ficcional ameniza consequências imediatas, ao contrário do que ocorre na vida real, e pode ser um meio para interpretar esta realidade e apresentar alternativas em termos de coragem, amorosidade, esperança. Por esta e por outras razões é que, com esta proposta, defendo e insisto na presença da literatura (na escola e fora dela).

 

Referências

ANDRUETTO, M. T. Por uma literatura sem adjetivos. Tradução: Carmen Cacciacarro. São Paulo: Pulo do Gato, 2012, p.205.

 

BAJARD, É. Ler e dizer. Compreensão e comunicação do texto escrito. São Paulo: Cortez, 2005, p.119.

 

___________. Da escuta de textos à leitura. São Paulo: Cortez, 2007, p.120.

CANDIDO, A. O direito à literatura. In: Vários Escritos. 1995. Disponível em: http://culturaemarxismo.files.wordpress.com. Acesso em 14 de abril de 2014 16:40h.

órdoba. Buenos Aires: Galerna, 2004.

 

KOUDELA, I. D.; JÚNIOR, J. S. De A. (Org.). Léxico de pedagogia do teatro. São Paulo: Perspectiva, 2015, p.203.

 

ROCHA, E. ; ELMA. Roupa de Brincar. São Paulo: Pulo do Gato, 2015, p.40.

 

UBERSFELD, A. Diccionario de términos claves del análisis teatral. Buenos Aires: Galerna, 2002, p.121.

 

VIDOR, H. B. Leitura e teatro: aproximação e apropriação do texto literário. São Paulo: Hucitec, 2016, 273.

 

ZUMTHOR, P. A letra e a voz. A “literatura medieval”. Tradução de Amálio Pinheiro (parte I) e Jerusa Pires Ferreira (parte II). São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.

 

____________. Performance, recepção, leitura. Tradução de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2007, p.125.

 

____________. Introdução à poesia oral. Tradução de Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz Pochat, Maria Inês de Almeida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, p.354.

 

 

 

 

 

 

[1] Doutora em Teatro, atriz e professora de teatro no Departamento de Artes Cênicas da UDESC, na área de Pedagogia do Teatro e Teatro-Educação.



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