Um breve registro

Maria Helena Kühner
►Com formação em Letras e Psicologia, MHK é escritora com mais de 30 livros publicados; dramaturga com diversas peças encenadas e premiadas; foi Diretora, Assessora ou Consultora de diferentes órgãos de Cultura, Educação e Comunicação. É membro de diversas entidades culturais, entre as quais o Pen Club do Brasil, a UBE e o CEPETIN – Centro de Pesquisa e Estudos do Teatro Infanto-Juvenil. Vive na cidade do Rio de Janeiro. (Cfr.linkedin )

Quando  verificamos que, ao longo de séculos, a criança foi considerada apenas um adulto em miniatura, que pedagogos como Pestalozzi, Comenius e outros tiveram que brigar para provar que a fase infantil tem características próprias e definidas, e que foi preciso o grito de Freud demonstrando que, ao contrário do que se dizia e pensava, a fase dos 2 aos 7 anos é fundamental e decisiva na estruturação da personalidade adulta, podemos ver a real dimensão e importância de ter sido o século XX considerado “o século da criança”.

Mas colocar a criança em foco, dar-lhe presença e voz, foi algo que de início ainda enfrentaria dificuldades, incertezas, preconceitos e até mesmo a desqualificação dos que se dedicariam  a esta arte supostamente “menor.”

Por isso foi com alegria que vimos surgir o Festival Nacional de Teatro Infantil de Blumenau, imaginando as dificuldades que teria para se implantar e se afirmar. Alegria que cresce ao vê-lo atingindo sua 20ª  edição ( ! ), com anos maiores e menores, mas continuando a ser, sempre,  um momento de encontro, de trocas, de ocasião de se  ter uma  panorâmica do está sendo feito no Teatro Infantil do país, e das possibilidades de perceber as linhas que desenham as mudanças que vão ocorrendo na dramaturgia textual e cênica.

Como o deste ano, reafirmando esta “civilização da imagem” com peso maior dado à cena que ao texto, mas em ambos trazendo esboçadas características já marcantes ou quase permanentes, como a ligação com a cultura popular ( cordel, folclore, lendas), a movimentação cênica viva e quase coreográfica,  por vezes sublinhada pela música, ou o humor sempre presente, ao lado de outras, inovadoras ou renovadoras, como a valorização do teatro de  sombras, o bom uso da máscara e dos bonecos na cena, e o uso mágico dos objetos, no qual, como no próprio brincar infantil, um utensílio de cozinha pode se transformar súbito em um peixe ou baleia, o feijão com arroz diário criar vida e sabor novos, histórias e lendas tradicionais receber uma nva leitura. E assim a realidade cotidiana e menor vai sendo ampliada, transformada, renovada, revalorizando a afetividade nas relações, fertilizando a imaginação, a magia, a fantasia, instigando a levantar vôo com o sonho, a não se contentar com abrir a janela para ver estrelas distantes, mas a mergulhar também nas águas profundas que põem em curso a energia da vida. Algo cada vez mais indispensável em uma sociedade mercantilista, individualista e tecnológica, sem o qual pode ser tornar desumanizadora.

Em um tempo em que vimos decuplicar a produção destinada à criança e seu consumo ser estimulado e provocado pela propagandeada multiplicidade do que lhe é proposto, foi  com prazer que vimos as plateias das 3 sessões diárias de cada espetáculo programado lotadas de crianças cujo olhar e postura corporal de atenção e interesse e silêncio só eram quebrados no ruidoso e entusiasmado aplauso ao final. Mostrando que o teatro continua sendo atrativo lugar de ver  e fazer ver – que são seu próprio e maior objetivo.

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